O passarinho, as pernas tortas e os Russos

Houve um tempo, em que um menino de berço pobre, apelidado de um passarinho, pernas tortas e cabeça avoada, decidiu achar o seu lugar no mundo.

A curiosidade acerca dos dons, é que não existe critério para a sua distribuição. Não há meritocracia para os recebíveis. O nosso personagem “Mané”, sequer sabia da importância do seu.

E como foi sarcástica a providência, entregou para o improvável de pernas tortas, o dom de entortar pernas alheias.
Zombaria, falavam os puristas e catedráticos.
Desta vez os Deuses foram irônicos demais, escreveu Drummond.

Garrincha não tinha apenas uma, mas as duas pernas tortas. Fosse hoje, socialistas diriam: Voltadas para esquerda ! Sim, é verdade.
Liberais exaltados responderiam: Era destro, e o melhor ponta direita que já existiu! Fato.
A polarização, contudo, não explica os dribles.

A genialidade do “ Anjo de pernas tortas” , imortalizado por Vinicios de Morais, estava nos seus dribles. Desconcertantes, improváveis e até jocosos em algumas ocasiões.
Garrrincha era democrático , sua arte não poupava idade, posições ou nacionalidade. Driblava por instinto e molecagem, costumava chamar suas vítimas de “Joões”. Diziam, que se entrassem mais duro, Mané voltava e fintava de novo. O anjo era demônio para os joões e johns escalados para marcá-lo.

Reza a lenda, que durante uma preleção na copa de 58, o então técnico Vicente Feola, traçou uma “ estratégica infalível “ para vencer a antiga União Soviética. Desenhou toda a jogada na qual Garrincha subjugava dois oponentes e cruzava para o lance do gol.
Mané não era notável pela sua perspicácia, mas a lógica do futebol também pode ser cartesiana; e perguntou na sua inocência astuta: “ Seu Feola, mas o senhor já combinou tudo isso com os Russos?”
Sem saber, Garrincha explicava a moderna teoria dos jogos, na qual, não existe tática eficiente se não tentar prever a reação dos adversários.

A previsibilidade também não era o forte de Mané, o Garrincha cavalheiro, não driblava as mulheres. O passarinho teve 13 filhos, um deles sueco, que nunca o conheceu pessoalmente. Sua deformidade evoluiu com artrose e dores insuportáveis nos joelhos. O crepúsculo do gênio não foi fácil.

Esquecido e na miséria, suas pernas não suportaram a enxurrada do álcool, e tombaram. Garrincha morreu aos 49 anos. Em vida, deixou um recado para os que pautam seus fracassos nas adversidades físicas e psíquicas.
As vozes que o viram jogar foram uníssonas: “ Nunca houve igual “.

Nota: Dentre às hipóteses das pernas tortas de Garrincha estão o joelho valgo ( joelho para dentro), uma deformidade congênita. Outra seria, que o craque foi acometido de poliomielite na infância.

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